sexta-feira, 14 de agosto de 2015

BILL GRAHAM APRESENTA: MINHA VIDA DENTRO E FORA DO ROCK (DICA DE LIVRO)






















Sabe o “Mate-me Por Favor”? Esqueça. “Hammer of Gods”? Deixe de lado. “Come As You Are”? Aposente. O livro definitivo sobre rock and roll atende pelo nome de “Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock”, escrito a quatro mãos pelo próprio Graham e por Robert Greenfield. Agora, cacete, quem é esse tal de Bill Graham, pergunta o leitor esperto antes de “dar um google”. Vamos lá: Bill Graham foi um dos produtores responsáveis em transformar o rock em um negócio lucrativo. Bem possível que sem ele o rock ainda estivesse na idade da pedra e, hoje em dia, você estivesse ouvindo jazz, bebop ou quetais ao invés de guitarras.

O livro segue o mesmo formato do citado “Mate-me Por Favor”, acumulando centenas de entrevistas que se sucedem uma após a outra em um trabalho primoroso de edição que procura esmiuçar o assunto do capítulo ouvindo todas as partes da história, com exceção, óbvia, aos mártires do rock que partiram cedo demais. Jim Morrison (que faltou a um show produzido por Graham para assistir – três vezes – ao filme “Casablanca”), Jimi Hendrix (que tocou fogo dezenas de vezes em sua guitarra na frente de Graham) e Janis Joplin (que desabafou para o amigo: “os caras da minha banda estão lá se divertindo com as garotas. E o que uma mulher faz após um show?”) estrelam passagens antológicas.










A história de Bill Graham, porém, começa muito antes dele fundar o Fillmore, em São Francisco. Filho de russos, criado na Alemanha, Graham deixou Berlim aos oito anos no auge da caça aos judeus promovida pelo exército de Hitler. Sua mãe deixou que um padre o levasse primeiro para Paris, depois para Barcelona, e então para os Estados Unidos, enquanto tentava salvar a vida de suas três irmãs. Uma delas acabou indo para Auschwitz, e saiu de lá viva em 1945. As outras acabaram tentando a sorte em países vizinhos enquanto a matriarca morreu sufocada com gás em um ônibus a caminho do campo de concentração. Toda primeira parte do livro traz a família Graham remoendo lembranças da guerra. São socos no estômago atrás de socos no estômago do leitor.

Nos Estados Unidos, Bill primeiro vê a Estatua da Liberdade, depois é adotado por uma família, vira garçom e segue um espiral de acontecimentos até descobrir sua grande vocação: produtor de shows. É aqui que o livro começa a se tornar obrigatório para fãs de rock castigados pelo fustigante e excelente começo do livro. Bill Graham torna-se um grande produtor dono de badaladas casas de shows em São Francisco e Nova York. Passa a se relacionar com todos os principais nomes do rock no mundo e muitos deles rendem passagens clássicas em “Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock”. Não a toa, o prefácio é escrito por Pete Townshend, apresentado no final como “guitarrista principal do The Who, uma ótima banda do distrito de Shepherds Bush, em Londres”.


Para se ter a idéia da importância do nome do homem no cenário rock dos anos 60, 70 e 80, quando Bill Graham sentou para conversar sobre a turnê que os Rolling Stones pretendiam fazer em 1981, o martelo só foi batido de verdade quando o produtor avisou a Mick Jagger que os cartazes não iriam trazer “Bill Graham apresenta…”, como de praxe em todo o show produzido por Bill, mas apenas “Rolling Stones”. Foi uma das poucas vezes que o nome do produtor não figurou no topo do cartaz em letras garrafais maiores que o nome dos artistas que ele apresentava. Bill Graham era uma grife, um atestado de qualidade ambulante que enfrentava produtores, empresários e músicos de igual para igual na busca incansável do que ele julgava primordial no meio em que ajudou a criar: entregar ao público um grande espetáculo.














Escrito a quatro mãos, sendo que duas são do próprio Bill, é de se esperar que o livro tenha uma tendência chapa branca, mas em quase todo o livro os dois lados são ouvidos. Robbie Robertson, líder da The Band (e responsáveis por uma das passagens Top 5 do livro), dá a deixa quando é perguntando sobre o motivo em que ele e Bill deixaram de se falar. “Vou dizer exatamente o que aconteceu. Como todos nós, Bill é famoso pelo editor de memórias na cabeça dele”. O músico segue contando a sua versão da história, e o leitor ganha mais objeto para análise. Bill é acusado de oportunista pelos hippies, de manipulador por adversários, de ausente pela família, e tudo isso é escrito às claras, sem enrolação. É claro que, ao final, o peso pende para o lado criativo do produtor, mas as histórias valem à pena.

Bill conta detalhes da gravação do especial “The Last Waltz”, da The Band, filme produzido por Martin Scorsese no Winterland, uma de seus templos de shows. O produtor relembra o primeiro Woodstoock (em que aparece no filme sobre o festival descendo a lenha na organização), rememora tretas com a polícia e abre o baú para contar com detalhes a história da confusão que envolveu membros de sua produtora com integrantes da equipe do Led Zeppelin, o que causou a prisão do empresário Peter Grant, do baterista John Bonham, do empresário de turnê e de um segurança. O caso acabou num processo de dois milhões de dólares pelos funcionários de Bill Graham. E o Led Zeppelin, após esse show, nunca mais tocou nos Estados Unidos.












O produtor ainda se envolveu nos anos seguintes com o Live Aid e a turnê Conspiracy of Hope da Anistia Internacional, mas são suas lembranças sobre astros da música um dos maiores destaques do livro. Não à toa, ainda na época das entrevistas (Bill Graham morreu em 1991), cinqüenta e oito discos gravados no Fillmore foram lançados e dezessete destes foram disco de ouro (a conta deve ter duplicado nos últimos quinze anos). Em 2006, um site foi processado por integrantes do Doors, Led Zeppelin e Santana – entre muitos outros – por vender milhares de gravações raras de áudio e vídeo de shows coletados durante 30 anos nas casas de Bill Graham. A coleção foi descrita por analistas como uma das mais importantes do rock reunidas em um único negócio.

O mesmo pode ser dito do livro “Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock”. As memórias do produtor que ajudou a lançar ícones do rock não invalidam, de forma alguma, os outros livros de rock (como os citados com ironia brincalhona na abertura deste texto), mas ampliam o alcance ao registrar imagens de dezenas de personalidades e contar – um pouco que seja – sobre o submundo do rock. Não é preciso ser um expert em música para saber que a briga de egos de malas como Crosby, Stills, Nash and Young deveria ser uma tortura para os que estavam ao redor da banda – e um deleite para quem estava na platéia.















Esses momentos, porém, acabam sendo sublimados por passagens líricas como a de um casal que falsificou o bilhete de entrada de uma noite de fim de ano no Fillmore, e foi levado até a administração. Bill olhou os bilhetes, perguntou como o casal tinha feito aquele trabalho, elogiou a arte gráfica e deixou-os curtir o ano novo na companhia de Janis Joplin e Grateful Dead. Ou então uma carta que o produtor recebeu de alguém que entrou sem pagar num show, e dizia ter tido uma das melhores experiências de sua vida. O tal rapaz enviou cinco notas de um e o resto em moedas para pagar pelo ingresso do show que viu de graça. Fatos pequenos como esses são jogados aqui e ali no colo do público em um livro que muitas vezes soa violento como uma canção do Sex Pistols, do Black Sabbath ou do Led Zeppelin, mas que também poderia ter momentos de Otis Redding, Bob Dylan e Rolling Stones na trilha sonora, entre muitos, mas muitos outros. Entre os livros obrigatórios de rock, este passa a ser o número 1.

“Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock”, 536 páginas
De Bill Graham e Robert Greenfield (Editora Barracuda)

Fonre: http://screamyell.com.br/blog/2008/12/23/o-livro-obrigatorio-numero-1-sobre-rock/

NÃO É A MAMÃE (PARA ENTENDER A ERA DILMA) - GUILHERME FIUZA (DICA DE LIVRO)

O jornalista Guilherme Fiuza não tem o hábito de reler suas crônicas publicadas semanalmente em O GLOBO e na revista “Época”. Ele conta que os textos martelam na sua cabeça durante muito tempo e vão para o papel quase prontos. Ao receber um convite para reunir em livro suas análises sobre o governo de Dilma Rousseff, num período que vai de antes da campanha eleitoral de 2010 até meados deste ano, ele repassou o que tinha escrito e enxergou um retrato irônico do país e da sua “enteada”, como se refere à presidente, já que Lula “é o filho único do Brasil”. Com o título “Não é a mamãe: para entender a Era Dilma” (Record), a obra será lançada na próxima quinta-feira, às 19h30m, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon.

O título, explica Fiuza, sintetiza a sua maior crítica ao governo atual: tentar parecer o que não é. Na sua opinião, trata-se de um projeto que busca se perpetuar no poder para viver, junto com seus aliados, das benesses do Estado, ao mesmo tempo em que se afirma defensor das pessoas que estariam sendo massacradas “por uma suposta elite de direita”.

— Eles têm esse discurso que considero hipócrita e mentiroso e a “mamãe” foi uma dessas tentativas de vender um símbolo que não traduz a substância — critica o jornalista. — O livro coloca o quadro completo, fica clara a continuação das tramas, dos personagens. Fica mais fácil de compreender o enredo. Porque boa parte da opinião pública brasileira ainda acha que a Dilma é uma boa gerente, que o problema dela é ser autoritária, intolerante. Isso é falso. Na biografia dela, você não encontra a boa gerente. Vários problemas do seu governo surgiram de projetos que ela já coordenava antes.

A obra é organizada em cinco partes: “Dilma é a mãe (2010)”, “A faxineira (2011)”, “A babá de Rosemary (2012)”, “A plebiscitária (2013)” e “Mamãe voltou (2014)”. Fiuza chama a faxina feita pela presidente no seu primeiro ano de mandato de “maior mal-entendido da história contemporânea”, já que o Departamento Nacional de Infraestrutura (Dnit) era um dos órgãos responsáveis por tocar os projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

— Era o governo dela, montado teoricamente por ela, que estava todo podre. Foi a imprensa que levantou tudo e foi estourando, como no caso do Ministério dos Transportes. A Dilma era a mãe do PAC e vários projetos estavam ali, no Ministério dos Transportes. Ela acompanhou tudo aquilo e aí começou a aparecer uma série de superfaturamentos e aditamentos. Não se trata de um acaso, aqueles escândalos já estavam plantados ali — afirma o jornalista.

HUMOR A SERVIÇO DA CRÍTICA
Apesar da série de denúncias de corrupção contra os governos do PT, Lula se reelegeu, terminou o mandato com a maior aprovação popular da História e ainda fez a sua sucessora. Como entender tamanho sucesso? Nas suas crônicas, Fiuza faz críticas duras à falta de reação da opinião pública frente aos escândalos. Ele afirma que, em 2003, Lula recebeu uma casa arrumada, surfou uma época de bonança internacional e conseguiu colar o sucesso do período às suas políticas.

— Minha crítica acaba sendo mais à própria opinião pública do que ao PT. Porque quando acontece algo desse nível (como os escândalos no Dnit), uma sociedade saudável tem que perceber que as coisas não podem continuar do mesmo jeito — afirma ele, rebatendo as críticas de que apoia o PSDB. — Não acho o PSDB bom e o PT ruim. Tenho várias críticas ao partido e ao Fernando Henrique. Mas sou realista, quero ver o Brasil como ele é. Houve arrumação com o Plano Real, estabilização monetária, responsabilidade fiscal, as bases que o país precisava para evoluir. Lula assumiu e pegou um ciclo virtuoso da economia internacional. A vida das pessoas melhorou e o eleitor vota com o bolso. Houve uma colagem entre as duas coisas, como se tudo tivesse melhorado porque o Lula era pobre ou bonzinho ou tinha sensibilidade social.

Nas suas crônicas, o jornalista gosta de cunhar expressões irônicas, como “DisneyLula”, “João Paulo Cunha, o Mandela brasileiro” (o ex-deputado se comparou ao líder sul-africano após ser condenado no processo do mensalão), e “quadrilha do bem”. Ele conta que as ideias surgem a partir do noticiário e que o escárnio é uma maneira de despertar as pessoas, colocando o humor a serviço da crítica.
No entanto, as expressões podem provocar reações exaltadas. Uma das que provocou a maior repercussão foi “Primavera Burra”, para se referir aos protestos de junho de 2013. O jornalista defende que não existe nenhum “recado das ruas” e o que ocorreu foi uma grande mobilização contra o mal-estar provocado pelo aumento da inflação. Para ele, houve um despertar para a política, e, ao mesmo tempo, o debate virou um “Fla-Flu”.

— Por que as pessoas foram as ruas de repente? A vida foi ficando mais cara, mais apertada, os dados de emprego começaram a piorar. As pessoas sentem e foram para as ruas mesmo sem saber direito a razão de estarem tão insatisfeitas — resume. — Fico chocado com como essa galera da Primavera me odeia. Essa minha tomada de posição gerou um antagonismo muito forte, vi pessoas amigas, jovens, virem falar comigo cheio de raiva. Há um Fla-Flu muito exacerbado entre credos diferentes. Há muita intolerância de quem quer assumir uma posição política.
(Fonte: O Globo)

HONORÁVEIS BANDIDOS - PALMÉRIO DÓRIA (DICA DE LIVRO)


Trecho de Honoráveis Bandidos, de Palmério Dória
Capítulo 1 

Estado de permanente sobressalto

Comemoração com cara de velório • Por que Roseana chora, se os outros aplaudem? • Tem sujeira por trás do impoluto jurista o Rolo justifi ca outro rolo e assim por diante • A qualquer momento nas páginas policiais

Estamos em 2009. Na data em que completa meio século de carreira política, aos 78 anos, o velho coronel comemora sem o menor sinal de euforia. Por certo pesam-lhe na memória as palavras de seu falecido amigo Roberto Campos, tão entreguista que lhe pespegaram o apelido de Bob Fields, ministro do Planejamento de Castelo Branco, primeiro general de plantão do governo militar:

"Certas vitórias parecem o prenúncio de uma grande derrota. É um amanhecer que não canta."
Deputado federal, governador do Maranhão, presidente da República, cinco vezes senador. E, no início desse ano pré-eleitoral, eis que em 2010 se dariam eleições presidenciais, ele chegava pela terceira vez à presidência do Senado. Mas tinha a sensação de que tudo aquilo que havia conquistado em meio século de vida pública podia estar por um segundo. Não foi de bom agouro a cena que se seguiu a seu discurso de pouco mais de cinco minutos, ao apresentar sua candidatura à presidência da Casa, naquela manhã de 2 de fevereiro, dia de festa no mar. Em sua fala, ele citou por sinal Nossa Senhora dos Navegantes, depois de se comparar a Rui Barbosa pela longevidade na vida pública e de proclamar que não houve escândalos em suas outras passagens no cargo. Esperava uma sessão rápida, mas, para sua inquietação, vários pares passaram a revezar-se para defender o outro candidato à presidência do Senado, o petista acreano Tião Viana, e aproveitaram para feri-lo. Assim, quando abriram a inscrição para os candidatos, ele pediu para falar. Queria dar a última palavra.

Marcado pela fama de evitar confrontos em plenário, fugiu a seu estilo e fez um pronunciamento duro. Um improviso daqueles que a gente leva um mês para preparar. Deixou claro que não gostou de ver Tião Viana posar de arauto da modernidade e higienizador da podridão que paira nos ares do parlamento brasileiro.

Depois de lembrar a coincidência de 50 anos antes, quando no dia 2 de fevereiro de 1959 assumia o primeiro mandato no Congresso como deputado federal, atacou:

"Não concordo quando se fala na imoralidade do Senado. O Senado é os que aqui estão. Reconheço que, ao longo da nossa vida, muitos se tornaram menos merecedores da admiração do país, mas não a instituição."

Então, pronunciou as palavras seguintes, que trazem os sinais trocados, pois tudo quanto você vai ler é tudo quanto o velho senador não é:

"Durante a minha vida, passei aqui nesta Casa 50 anos. Muitas comissões, vamos dizer assim, muitos escândalos existiram envolvendo parlamentares, mas nunca o nome do parlamentar José Sarney constou de qualquer desses escândalos ao longo de toda a vida do Senado." Disse mais: "A palavra ética, para mim, que nunca fui de alardear nada, é um estado de espírito. Não é uma palavra para eu usar como demagogia ou uma palavra para eu usar num simples debate."

A filha Roseana Sarney, senadora pelo Maranhão, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, o mesmo PMDB do pai, caminhava pelo plenário, muito nervosa. Estava em lágrimas quando o pai encerrou sua fala. Os oitenta pares o aplaudiram protocolarmente, mas um deles, de um salto pôs-se de pé e bateu palmas efusivas, acompanhadas do revoar de suas melenas. Tratava-se de Wellington Salgado, do PMDB mineiro, conhecido como Pedro de Lara ou Sansão.

Onde se encontravam os jornalistas de política nesse momento, que não registraram tal despautério? Pedro de Lara é aquela figura histriônica que roubava a cena no programa Silvio Santos como jurado ranzinza, debochado e falso moralista. E Sansão, o personagem bíblico que perdeu o vigor quando Dalila o traiu cortando-lhe a cabeleira.

Esta fi gura caricata pareceria um estranho no ninho em qualquer parlamento do mundo. Nascido no Rio, é dono da Universidade Oliveira Salgado, no município de São Gonçalo, e responde a processo por sonegação de impostos no Supremo Tribunal Federal. Conseguiu um domicílio eleitoral fajuto em Araguari, Minas Gerais, e praticamente comprou um mandato de senador ao financiar de seu próprio bolso, com 500 mil reais, uma parte da milionária campanha para o Senado de Hélio Costa, o eterno repórter do Fantástico da Rede Globo em Nova York.

Com a ida de Hélio para o Ministério das Comunicações de Lula, seu suplente Wellington então ganhou uma cadeira no Senado Federal, presente que ele paga com gratidão tão desmesurada, que separa da verba de seu gabinete todo santo mês os 7 mil reais da secretária particular do ministro. Nesse tipo de malandragem, fez como seu ídolo, colega de Senado Renan Calheiros, que vinha pagando quase 5 mil mensais para a sogra de seu assessor de imprensa ficar em casa sem fazer nada.
Mas o cabeludo senador chegou à ribalta em 2007, justamente como aguerrido integrante da tropa de choque que salvou o mandato de Renan Calheiros, então presidente do Senado e estrela principal do episódio mais indecoroso daquele ano, com amante pelada na capa da Playboy, bois voadores e fazendas-fantasma. O alagoano Renan, com uma filha fora do casamento, que teve com a apresentadora de tevê Mônica Veloso, bancava a moça com mesada paga por Cláudio Gontijo, diretor da construtora Mendes Júnior. Ao tentar explicar-se, Renan enredou-se em notas frias, rebanho superfaturado, rede de emissoras de rádio em nome de laranjas, enquanto Mônica mostrava aos leitores da revista masculina da Editora Abril a borboleta tatuada na nádega.

Durante 120 dias, enxotado pela mídia e pela opinião pública, Renan resistiu no cargo, suportando humilhações como o plenário oposicionista virando-lhe as costas no dia em que tentou presidir uma sessão. Esse era o Renan que, quase dois anos depois, no 2 de fevereiro de 2009 posaria vitorioso como articulador-mor da volta de José Sarney à presidência da Casa.

Quem diria, não? O José Sarney que já foi companheiro de um nacionalista respeitado como Seixas Dória, de um articulador do calibre de José Aparecido de Oliveira, de um jurista do porte de Clóvis Ferro Costa, todos três integrantes do grupo Bossa Nova, espécie de esquerda da União Democrática Nacional, a conservadora UDN, todos três ostentando o galardão de ter sido cassados pelo golpe militar de 1964, e sabe-se lá por quais artes só ele, Sarney, dentre os quatro amigos escapou da cassação, esse mesmo Sarney agora festejado pelo cabeludo sonegador e por uma das mais desmoralizadas figuras do cenário político brasileiro, Renan Calheiros, que tinha nos costados um inquérito com 29 volumes tramitando no Supremo.

Quer fechar o círculo direitinho? Em 2007, depois de absolvido pelo plenário em votação secreta e escapar da cassação por quebra de decoro parlamentar, na casa de quem Renan Calheiros comemorou a preservação do mandato? Na casa de seu salvador, Sarney, junto com outras figuras, como o deputado federal e ex-presidente do Senado Jader Barbalho, com know-how em renúncia para escapar de cassação; Romero Jucá, líder do PMDB no Senado; Edison Lobão, futuro ministro das Minas e Energia; e, claro, Roseana Sarney. Nesse festejo, no Lago Sul de Brasília, não se esqueceram de "homenagear" o senador amazonense Jefferson Peres. Esta fi gura íntegra do parlamento brasileiro, relator do caso Renan no Conselho de Ética, recomendou a cassação, pedida pelo povo brasileiro. Os convivas mimoseavam Jefferson a todo momento, referindo- se a ele como "aquele pobre relator".

Memorável dia 2 de fevereiro. Surpreendentes seriam as fotografias nos jornais do dia seguinte. Sarney de óculos escuros como os ditadores latino-americanos do passado, amparado pelo colega de PMDB Michel Temer, eleito presidente da Câmara, igualmente pela terceira vez. Barba e bigode. Este Michel Temer merece umas pinceladas.

TRISTESSA - JACK KEROUAC (DICA DE LIVRO)

"(…) a visão de Tristessa em minha cama, em meus braços, a estranheza de seu rosto amoroso, asteca, garota índia com olhos de Billie Holliday misteriosos e semicerrados e com uma grande voz melancólica como as atrizes vienenses de rostos tristes como Luise Rainer que fizeram toda a Ucrânia chorar em 1910".

A primeira obra de Jack Kerouac. É uma das que mais gosto do autor por fazer saltar imagens muito sensoriais em minha cabeça. Os guetos, as ruas sujas, a pobreza, uma galinha ciscando na cozinha (os animais domésticos são bem presentes na obra), as drogas para suportar a dureza dos dias, a prostituição, as roupas rotas, os olhos tristes de Tristessa, a paixão… A narrativa gira em torno da paixão de Jack Kerouac, quando de sua ida ao México, por uma garota chamada Tristessa.

Tris-te-ssa, um nome lindo. Uma das personagens centrais do livro. Uma índia asteca viciada em morfina, com os olhos de misteriosas pálpebras. Eu a imagino com seus olhos, olhos que a gente olha e quer ficar olhando, deixando-se levar suavemente nas ondas de beleza.

É um livro rápido de se ler, mas intenso sensorialmente, pelo menos foi essa a minha impressão, me senti transportado para um ambiente do qual acho perfeito.

Um mundo de pulsações delirantes e devaneios, uma garota dessas que a gente se apaixona por alguns detalhes e não consegue vivê-la da forma que gostaria, e então a gente usa um pouco de álcool para tentar escapar, a mistura do amor com uma dor sem vítima, as dores de um mundo tal como é e ao mesmo tempo as suas forças apaixonantes.

A narrativa de Kerouac favorece, quem o conhece sabe, o foco está muito mais em permitir a consciência fluir tal como se apresenta do que passá-la pelas regras e formas da letra.

Recomendadíssimo!

Escrito por Adriel Dutra
Fonte: http://letraefilosofia.com.br/tristessa-jack-kerouac-resenha/


ALGUNS TRECHOS DA OBRA

Tristessa está doidona, linda como sempre. Vai alegre para casa deitar na cama e curtir sua morfina.

Saí dessa conversa com a visão de Tristessa em minha cama, em meus braços, a estranheza de seu rosto amoroso, asteca, garota índia com olhos de Billie Holliday misteriosos e semicerrados e com uma grande voz melancólica como as atrizes vienenses de rostos tristes como Luise Rainer que fizeram toda a Ucrânia chorar em 1910.
Ed. L&PM Pocket

Curvas lindas em forma de pera moldam a pele de seu rosto, que tem pestanas compridas e tristes, e uma resignação de Virgem Maria, e uma compleição cor de café e textura de pêssego e olhos de um mistério impressionante com uma falta de expressão de profundidade rasteira, meio desdém meio um lamento de dor pesaroso.

Ela encurva os ombros com rosto de camponesa, compreendendo a si mesma de uma maneira que eu não consigo e quando olho para ela sob o tremeluzir da vela sobre as maçãs protuberantes de seu rosto e ela parece tão bonita quanto uma Ava Gardner Negra, uma Ava Marrom de rosto comprido e ossos compridos e olhos semicerrados de cílios compridos

Tristessa tira as meias para entrar nos cobertores da cama dizendo um segredo de frases de amor veneráveis a meia-voz (“Tristessa, O Yé comme tu est Belle”) (o que, sem dúvida, é o que estou pensando mas tenho medo de olhar e ver Tristessa tirar suas meias de náilon com medo de conseguir ver suas coxas cor de café com leite e ficar louco)

O gatinho mia apressado por carne – ele mesmo um pedaço de carne agitado – espírito devora espírito no vazio geral.
(…) e aquele rosto tão expressivo, de dor e beleza que sem dúvida ajuda na construção deste mundo fatal (…)

QUERO TOMÁ-LA COM as duas mãos pela cintura e puxá-la devagar para perto com poucas palavras bem escolhidas de ternura súbita como “Mi gloria angela” ou “Mi qualquer coisa” mas não tenho linguagem para encobrir meu embaraço

Desde o começo insondável dos tempos até o futuro infinito, os homens têm amado as mulheres sem lhes dizerem (…)

Tristessa. JACK KEROUAC. Ed. L&PM Pocket. 107p.

POR TRÁS DA MÁSCARA - DO PASSE LIVRE AOS BLACK BLOCS (DICA DE LIVRO)


O analista político, tradutor e palestrante Flavio Morgenstern analisou o movimento em tempo real em artigos na internet, mas agora aprofunda a análise no livro Por trás da máscara – do passe livre aos black blocs, as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Ed. Record). 

Morgenstern desmascara as “jornadas de junho”, desnudando com muito bom humor não apenas os eventos em si, mas o espírito da insurreição, o cenário, os interesses, o noticiário e, principalmente, as técnicas de utilização dos movimentos de massas para fins políticos no Brasil e no resto do mundo.

Citando farta bibliografia a respeito e comparando as versões de cada país e época, ele escreve:

“Talvez não seja o caso de se perguntar o que há de tão original em movimentos de massa, e sim como pessoas tão pouco interessadas em política de repente se uniram a discursos exigindo mais serviços estatais com o auxílio de memes e linguagem típica da internet.”

“Toda a grande novidade resume-se a elas [as manifestações] terem sido organizadas por redes sociais digitais, antes inexistentes. O restante da quizomba permanece idêntico: agitação de massas promovida por sindicatos e movimentos revolucionários, apenas mascarando seu desejo de estatização através de nomes mais apreciáveis ao grande público do século XXI, como ‘Passe Livre’ ou ‘Occupy’.”

Para entender as forças em jogo no ambiente político-cultural brasileiro e nunca mais se deixar levar por propagandas genéricas, faça a sua parte também: leia Por trás da máscara.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

ESQUERDA CAVIAR (DICA DE LIVRO)















Mais uma dica de livro, este livro eu indico não só a pessoas com um discurso liberal à direita mas sim para as pessoas que como eu amadureceram e compreenderam que: discursos demagógicos, utopias santificadas, militâncias religiosas, extremismos ideológicos, o politicamente correto e o controle estatal são males que atrasam o desenvolvimento de um país e dividem a população, enfraquecendo ainda mais nossa democracia. Deixo abaixo uma ótima resenha deste livro publicado em 2013 na página de cultura do site da revista Veja:

Depois do ótimo “O Mínimo que você Precisa Saber para Não ser um Idiota”, de Olavo de Carvalho, lançado em agosto, agora vemos o lançamento do novo livro de Rodrigo Constantino, “A Esquerda Caviar”. A meu ver, é com certeza a melhor obra de Constantino, divertidíssima de se ler, e que lança mais um alento nessa onda de bom material de pensamento liberal disponível ao leitor brasileiro.


O livro inclui inúmeros exemplos de socialistas que levam uma vida de abundância, especialmente por causa do discurso que propagam. Entre eles estão políticos, jornalistas e principalmente artistas. Quer entender como pensa gente como Wagner Moura e Mathew Modine? Este é o livro.


Tive alguns incômodos em certos momentos quando Constantino trata esse tipo de comportamento como uma contradição em relação ao discurso esquerdista. Aí me parece que a “esquerda caviar” seria uma aberração. Neste ponto eu argumento em direção oposta: a “esquerda caviar” é a consequência óbvia da aplicação do discurso socialista. Mas este é apenas um detalhe que não atrapalha o saborear da obra.

A verdade é que o discurso socialista gera dividendos para os mais espertos. Artistas que usam o discurso socialista tem sua vida facilitada para receber financiamento do governo esquerdista, ou ao menos obter o afago da massa que os acham mais altruístas que os outros. Jornalistas que se posicionam a favor do socialismo podem ostentar blogs de baixa visitação e ainda assim receber polpudas verbas do governo. Como diria Constantino: “E que verbas!”. Os exemplos de milionários e até bilionários usando o discurso esquerdista pululam aos borbotões.

Eu uso uma terminologia diferente: beneficiário e funcional. O esquerdista beneficiário é aquele que se beneficia com o discurso esquerdista. São os criadores deste discurso, e aqueles que enriquecem por causa do uso hábil dos jogos esquerdistas. A grande maioria dos esquerdistas, no entanto, apenas torce para o sucesso do esquerdismo e não ganha nada com isso. São apenas pessoas que lutam para que um pequeno grupo de pessoas adquira poderes excessivos. Às custas de seus esforços, é claro.

Enfim, aqueles que eu defino como esquerdistas beneficiários são, em linhas gerais, aqueles que Rodrigo Constantino aborda em “A Esquerda Caviar”. Eles não são uma aberração do pensamento esquerdista, mas a razão de ser do próprio esquerdismo. No dia em que um bando de espertos, incluindo Rousseau e Marx, resolveu produzir discursos, obviamente sabia que este tipo de material iria servir para que um grupo de pessoas mais espertas ganhasse muito poder às custas de uma multidão de otários que leva esses discursos à sério.

Para quem quiser ridicularizar os esquerdistas funcionais (e quase todos eles são), “Esquerda Caviar” é um livro de lavar a alma. Divirta-se!

Por Luciano Ayan


segunda-feira, 27 de julho de 2015

O ROCK INDEPENDENTE BRASILEIRO (PARTE 6) EL NEGRO

El Negro





















Trio formado em 2012 na capital gaúcha por músicos já experientes de estrada: Mumu (Vera Loca) aqui no vocal e na guitarra, Fabian Steinert (Wishcraftt) no baixo e Leandro Schirmer (Nei Van Sória, ex-Vera Loca) na bateria.

O projeto El Negro é de se arrebatar na primeira escutada. Para quem gosta daqueles power trios obscuros dos anos 1970 vai se deliciar.  Fazem um hard setentista garageiro, orgânico e raivoso. Totalmente diferente do estilo das atuais bandas dos integrantes.

Mumu nos mostra que não é somente um bom baixista, mas sim um músico cheio de potencial. É o carro chefe da El Negro, sua guitarra é que conduz a sonoridade da banda, calcada num concreto de riffs viscerais. Leandro Schirmer nem parece aquele baterista calmo do inicio da Vera Loca. Na El Negro bate muito mais forte e seguro, com uma pegada e viradas pendendo para o metal. E Fabian conduz no limite a cozinha da banda no baixo.

Ao escutar percebe-se a referencia de uma aura Hard Blues setentista e de um Stoner Rock desértico dos anos 1990. Notam-se também vestígios de Jon Spencer Blues Explosion, The Racounters, Wolfmother em certas passagens. Mumu agrega também o Lap Steel para aprimorar o trabalho da banda. Outra influencia congruente dos integrantes é o gosto dos filmes Exploitation, que converge a uma sonoridade que pode ser pensada como trilha para esse movimento cinematográfico.












A banda gravou ao vivo as músicas para o primeiro álbum e soltou o primeiro single e videoclipe da faixa “Pé no Talo”, que resume a proposta do som da El Negro. Para contribuir com o clima pretendido, o registro se deu em uma fábrica desativada de Porto Alegre; aproveitando os reverbs do ambiente amplo. O lugar pode ser visto no clipe da música lançada.

Calçada na sonoridade setentista do Hard Blue e Stoner Rock, embalada por guitarras sujas e raivosas, o power trio lançou recentemente o seu primeiro disco. Com onze faixas autorais, o álbum foi gravado ao vivo em dois dias de gravação em uma fábrica abandonada em Porto Alegre. O registro traz a produção do holandês radicado no Brasil Marcel Van der Zwam, a mixagem de Ray Zimmer e masterização do norte-americano Jim Diamond (ex-baixista da The Dirtbombs e produtor dos dois primeiros discos do The White Stripes).

O disco homônimo pode ser ouvido e baixado gratuitamente no site do grupo. Destaque para canções “O Ponto Mais Alto”, “Estradas Vazias” e “Pé No Talo”, esta última ganhou um clipe produzido pelo coletivo Bluebag da Braddock Filmes.

Confira o vídeo abaixo: