terça-feira, 12 de outubro de 2010

ABSTINÊNCIA

Às vezes não nos controlamos,
Nossa calma é interrompida,
Nossa serenidade desmedida,
E jogamos fora todas as regras.

Às vezes doe a cabeça,
Tão circular e espessa,
Nossos nervos ficam a flor da pele,
E os nossos poros não aceitam, repelem.

Nossa boca fica seca,
Nosso peito cheio de anseio,
Ficamos ansiosos e inquietos.
Procuramos fuga em ruas sem saída.

É como sustentar uma ferida,
Com cortes em doses homeopáticas,
É descontentar-se e sentir fadiga,
E não suportar olhar a própria face.


2006

ADMOESTAR


















Como é lento este seu pensamento!
Não avança se cansa rápido,
Como é fraco, retardado.

Como é impreciso este seu sorriso,
Tão escuso e amarelado;
Pare com este discurso, ultrapassado.

Mude estes seus trajes,
Faça um novo penteado,
Não fique ai sentado.

Fale alguma coisa,
Deixe de ser tão calado,
Pautado.

Seja transparente,
Ninguém aqui entende,
Este seu jeito recatado.

Pare de se sentir culpado,
Todo mundo aqui esta errado.
Não seja assim demasiado, disfarçado.

Não deixe sua vida desmedida,
Não a interrompa apenas com uma vírgula,
Tenha sobre ela cautela e muita critica.

2006



CÁSSIA SEMPRE CÁSSIA


















Eu não sabia que naquele dia eu te encontraria,
Foi assim por acaso, realmente não estávamos preparados 
Sua ternura atrás daqueles olhos perdidos,
Toda aquela timidez,
Eu não sabia, se não a diria, o quanto você significou em minha vida.

Naquele pequeno instante eu entendi,
Que quem estava ali era um tanto menor 
do que a gigante que em seguida se ergueria naquele palco.
Mas as luzes se acenderam e seu nome anunciado, 
as nuvens se abriram e então sua voz soprou feito um trovão.

E em pouco tempo todo aquele ambiente se encheria de música e delírio!
Uma deusa andrógina tomava conta, tornara minúsculo aquele imenso palco!
Cássia sempre Cássia,
Um estrondo, uma tormenta, um furacão
que passou tão depressa e surpreendente como um incêndio!
Tomando para si toda a poesia da nossa música.

03/08/2006


SONHO INDIANO














O vento soprava de leve a vela do castiçal,
E ela perambulava nos corredores de vestido longo indiano,

Na sala ela dançava, ao som de cem cítaras e
mil batidas de tablas.
“Era assim que se iniciava o dia daquela menina meio hindu”,

Com música e dança!
Havia incensos espalhados, no chão almofadado,
Alguns lírios, taças e fumos,
Havia em todo o recinto pétalas de rosas vermelhas.

E ela então deslumbrava em delírio e veemência aos olhos de quem a fitava inertes.
Uma deusa tentadora de desejos alheios, uma mistura de cigana indiana com princesa africana.
Beleza rara nunca antes visto, a não ser em tentadores sonhos.

27/07/2006


POBRE POEMA



















Pobre triste poema que se inicia
Onde nos remete ao obscuro vácuo do silencio.

Poema de despedidas,
Poema de desilusões,
Amores partidos,
Traições.

Amores secretos, amores mortos,
Amigos mortos,
Parentes.
Poema, narrativa dor, pobreza,
Poesia sem rima,
Palavras tensas.

Pobre poema que degela o peito,
Segredos,
Petrifica a alma.
Poema triste, fora de seqüência,
Poema tolo.

Arrependido, louco,
Poema fraco solto,
Poema sem luz,
Fosco.

Poema cuspido,
Empalhado,
Inerte,
Tal qual santa no altar.

Poema sujo,
Flagelado,
Mudo,
Calado!
Poema corrupto,
Poema triste de dar dó,
Poema franzino,
Rasgado.

Poema em trapos,
Farrapos,
Estilhaços,
Quebrado!

Poema,
Sem vergonha,
Amontoado,
Fatídico!

Poema sem lustre,
Manchado,
Mofado,
Fedido.

Poema fétido,
Derramado,
Escoa na folha
Ferido.

19/07/2006

NOTÍVAGO





















Quero cantar-te ó noite fúnebre;
Saudações de seu discípulo noturno!
De seu mais célebre e soturno,
Entre a minha sordidez, meus pensamentos pagos,
Por migalhas deixadas por escravos vagos.

Quero sucumbir-me entrelaçado em sua brisa fina,
Vagar nas calçadas da cidade fantasma,
Espantar dos telhados seus gatos sádicos,
E ter nos becos, sabedoria, com os teus ratos.

Quero ver-te ó lua meia, ontem, ainda cheia,
Agora um buraco no vácuo.
Quero ver-te estrelas guia,
A cidade baixa se ilumina,
Com as suas luzes cintilantes.

Quero não sonhar esta noite,
Não ter com os seus pesadelos.
Ouvir o murmúrio de mendicância ecoando de teus
guetos, desvendar aos poucos os teus segredos.

Quero ver minha sombra de subúrbio,
Assustando, pichadores surdos,
Assaltantes burros,
Atrás de cada poste.

À meretriz vou dedicar um soneto,
Para a cafetina um café pequeno.
Para o guarda um cachorro quente,
E ao mendigo, um gole de aguardente.

2005

MODÉSTIA

Todo poeta é incompreendido,
E eu não sou uma exceção,
Todo poeta é metido,
Porque todo poeta é bonito.

Todo poeta é romântico,
Boêmio, nada tímido,
Todo poeta é sábio,
Porém desorganizado.

Todo poeta deslumbra,
Todo poeta é saudosista,
Irrita-se com a monotonia,
Mas adora o ócio.

Todo poeta é um pouco músico,
Excêntrico, libidinoso,
Todo poeta é curioso,
Não é nada óbvio.

Todo poeta assim como eu desfruta da habilidade de poetizar, até o que não se valoriza.

14/07/2006